Curta Sapopemba

"Janela de Quarto", 1977, Walter Miranda

domingo, 24 de junho de 2012

Meu Lugar

 

Não reconheço meu bairro

Minhas ruas não me dizem nada

Já não encontro velhos amigos

Meus passos já não deixam lastro

A Igreja. Minha igreja já não é mais minha

O pároco se foi, os crismados, a legião de maria

A rádio calou, os cantos já não consolam mais

A escola onde estudei, meus professores,

por onde andam meus professores

As quadras, as escadas, as tias, meu diretor, meus colegas

não os vejo mais em mim

Seu Teodoro se foi, o peixeiro não me acorda mais

O vôlei, o futebol, os balões

tudo ficou pra trás

Agora esse vento

esse raios de luz empoeirado

este instante pausado que entra pela janela em meu

quarto

é saudade

saudade de mim

de meu bairro.



Norival Leme Junior - Poemas Incompletos e outros textos, 2012 -  Editora Atemporal












Postado por E.E.Sapopemba às 07:13 Um comentário:
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Marcadores: intervenção artística, janela, poesia, provocações, sapopemba
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Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.

Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(...)


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

(...)

Fernando Pessoa - 15/01/1928



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